CAPÍTULO I • SÉCULOS XIII A XVII: A FRONTEIRA DO PINHAL DO REI
1. A Sementeira Real e os Primeiros Casais da Borda da Mata
A história do território onde hoje assenta o Pilado começa com a formação e expansão da Mata Nacional de Leiria (Pinhal do Rei), mandada alargar pelos reis D. Afonso III e D. Dinis no século XIII para conter o avanço das dunas móveis do Atlântico sobre as várzeas agrícolas do rio Lis. Durante séculos, a faixa oriental da mata — que liga a zona de Garcia, Escoura, Pilado e Moita da Roda — funcionou como uma fronteira viva entre a floresta da Coroa e as pequenas courelas desbravadas por colonos, pegureiros e lenhadores.
Estes primeiros povoadores fixaram-se junto às linhas de água doce e aos barreiros que desciam em direção às ribeiras, construindo pequenos casais de adobos (tijolo de barro cru e areia seco ao sol) e madeira de pinho. Viviam numa economia austera: cultivavam milho, centeio e feijão nas terras de areia estrumadas com caruma e mato curtido nos currais, guardavam gado nas clareiras e forneciam lenha e pez para os estaleiros navais reais.
CAPÍTULO II • SÉCULO XVIII: O PILÃO DE GRÃO E A REVOLUÇÃO DO VIDRO (1769)
2. O Nascimento do Nome «Pilado» e a Fábrica de Guilherme Stephens
Antes de existirem moinhos mecânicos próximos, o cereal colhido nos casais era descascado e triturado à força de braços num grande pilão cavado em tronco de carvalho ou pinheiro. O hábito de os habitantes dos lugares vizinhos dizerem «vamos ao casal onde o milho é pilado» fixou na memória oral e nos livros paroquiais o topónimo Pilado.
Em 1769, quando o inglês Guilherme Stephens, com o patrocínio do Marquês de Pombal, reergue a Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande e recebe o privilégio de utilizar a lenha do Pinhal do Rei, a vida do Pilado muda para sempre. A aldeia transforma-se no reservatório humano e energético da indústria: os homens da terra passam a cortar a lenha dos fornos, a sangrar a resina dos pinheiros e a ingressar como aprendizes, empalhadores e mestres vidreiros nas «praças» ardentes da vila.
CAPÍTULO III • SÉCULO XIX A MEADOS DO SÉCULO XX: A EPOPEIA DAS CARVOEIRAS
3. As Mulheres do Carvão, as Bicicletas da Madrugada e os Aceiros do Samouco
Ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX, consolida-se no Pilado uma organização familiar singular. De madrugada, ao soar do apito das vidreiras (Stephens, Nacional, Santos Barosa, Pereira Roldão), os homens pedalavam nas suas bicicletas pasteleiras para enfrentar turnos a 1.400 °C. Em casa e nas clareiras da mata, as mulheres do Pilado assumiam o comando da lavoura e, sobretudo, das carvoarias artesanais.
Com os sobrantes dos cortes do Pinhal de Leiria, armavam os fornos de terra vedados a caruma e moinha (e mais tarde os fornos abobadados de tijolo), vigiando o fumo dia e noite durante uma semana para produzir o carvão vegetal que seguia em sacas para Leiria e Lisboa. Nos raros domingos de descanso de verão, o escape das famílias fazia-se pelos aceiros direitos dos Talhões 144 e 145 até à água fresca da Fonte do Samouco e ao mar bravo da Praia do Samouco.
CAPÍTULO IV • 1948 A 1974: ASSOCIATIVISMO, ULTRAMAR E UNIÃO POPULAR
4. A SDRPE (1948), o Soldado Amílcar (1968), a Capela (1974) e o Café do Texugo
O orgulho bairrista do Pilado e da vizinha Escoura ganha casa própria a 25 de julho de 1948 com a fundação da Sociedade Desportiva e Recreativa do Pilado e Escoura (SDRPE), palco dos grandes torneios de chinquilho, do futebol popular e dos bailes de acordeão. Nos anos 60, a aldeia conhece a dureza da emigração a «salto» para França e a dor da Guerra do Ultramar: a 13 de janeiro de 1968, o jovem soldado Amílcar Paulo Gomes Grilo, natural do Pilado, tomba em combate no norte de Angola, ficando o seu nome gravado para sempre na Rua Amílcar Paulo Grilo.
Em 1974, cansado de caminhar uma légua até à matriz da Marinha Grande, o povo junta dinheiro, pedra, cimento e braços nos fins de semana para erguer a Capela de Nossa Senhora do Rosário. Ali mesmo ao lado, junto à Travessa Central e ao campo de jogos, consolida-se também o célebre Café do Texugo, ponto de encontro obrigatório desde a bica da madrugada até às tardes de sueca e dominó.
CAPÍTULO V • DOS ANOS 1970 AO SÉCULO XXI: OS MOLDES E A RESISTÊNCIA
5. Das Oficinas de Moldes à Defesa do Pinhal em 2017
A partir da década de 1970, os filhos dos antigos vidreiros e carvoeiras do Pilado protagonizam o salto tecnológico da Marinha Grande para a indústria de moldes de precisão. Em anexos e barracões nas traseiras dos quintais nascem pequenas oficinas de torneamento, fresagem e bancada que hoje exportam engenharia de ponta para todo o mundo.
A 15 de outubro de 2017, a aldeia enfrentou a sua noite mais dramática quando o grande incêndio empurrado pela tempestade Ophelia consumiu mais de 80% do Pinhal do Rei. Unidos porta a porta com baldes, mangueiras e cisternas, os habitantes do Pilado e da Escoura salvaram as suas casas e mantiveram viva a alma de uma terra que, há sete séculos, sabe renascer do trabalho, da resina, do carvão, do vidro e do aço.